segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A Marca Humana, Philip Roth

"Para viver na confusão do mundo com um mínimo de sofrimento, o segredo é conseguir fazer com que o maior número de pessoas possível embarque nas suas ilusões; para viver sozinho aqui na montanha, longe de todos os envolvimentos, todas as atrações e expectativas que nos perturbam a paz, longe, sobretudo, de nossa própria intensidade, o segredo é organizar o silêncio, pensar na plenitude da montanha como capital, encarar o silêncio como uma riqueza que está se multiplicando constantemente. O silêncio que nos cerca é a vantagem que escolhemos, e é só com ele que temos intimidade. O segredo é encontrar sustento nas 'comunicações de uma mente solidária consigo mesmo'. [...]. O segredo é encontrar sustento na sabedoria dos mortos geniais."

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

sábado, 14 de novembro de 2009

Homenagem

Dias sem luz
e ele me arrebata
Entrando sem temores
num mundo com esquinas e curvas
E onde delícia tem sabores outros
Além de vinhos e queijos e doces.

Sim,
Com ele me deleito.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Noite de Poesia

Noite de Poesia na escola de Julinha, com recital, exposição e tal. Auditório com pouquíssimos alunos e pais e parentes. Poesia, como sempre, não dá ibope.


Os alunos do 8º ano (em torno de 50) haviam criado poesias, das quais seriam escolhidas 6, com premiações pela Escola.

Chego, vou ao mural, leio algumas delas, da minha filha e outras, e em todas, sentimentos de adolescentes, vagos ou não, ingênuos, sinceros, copiados, um misto de adolescentes românticos e raivosos e amorosos, gente como a gente.

Sento e aguardo.

Início: um vídeo, com umas gravuras de uma criança que se torna um velho, aquarelas, passarinhos em fios que se balançam, muito bonitinho. Acompanhando o texto e as gravuras, uma música em inglês, que não conheço, mas gostei.

Na verdade, gostei do vídeo, porém a apresentação do vídeo naquele momento foi inoportuna, era preciso gente, gente falando, conversando, adolescentes recitando, criando...

Na verdade, de novo, sei que ando insuportável, implicando com tudo, coisa de mulher chata, mas, não é bem assim, é que vídeo, vídeo, computador, eu tô cheia; caso queira, abro no Google, aquele vídeo e texto e curto aquilo no meu computador. Ali, eu queria emoção com gente ou gente com emoção, por aí.

Depois do início insosso, vem uma parte boa, violão e professores recitando poesia: ao todo 6 poesias, as vencedoras. Vi de cara que a poesia de Júlia não fora uma das escolhidas e ela chia do meu lado...que birra é essa da gente querer ganhar sempre? Eu falo isso, mas não aprendi nada de nada, porque, como ela, fico triste por ela não está entre as 6 "melhores" e lidas.

Palmas, premiação simbólica e vamos embora. Júlia chora, se sente a derrotada, aliás, como eu me sentiria.

Saímos de lá, Júlia chorando, pergunto a ela:
 - Você tá triste, né, filha?

– Tô nem aí, mas também não vou participar mais, se eu soubesse não teria vindo.

- Julinha, você tá triste, filha, eu sei só em olhar pra você...eu também tô...se eu tivesse participado eu também teria ficado triste por não terem lido a minha...

Julinha para de chorar e pergunta:
 - Mamãe, você já participou de concurso de poesia? Eu não vou participar mais...a de M. foi copiada um pedaço de uma música (em inglês) e a outra, de B., parece que foi também.

- Eh, filha, mas aí é questão de consciência. A de M. eu tenho certeza do plágio, mas a outra, não sei. A menina talvez goste de ler poesia, tenha um dom pra isso.

- Ah, mamãe, mas também eu nunca li um livro todo de poesia, eu só gosto da poesia de Cazuza, acho linda. Mamãe, Cazuza era poeta?

- Era sim, claro.

- Mas tem umas coisas dele que eu não entendo...

- Ué, Julinha, não precisa entender tudo, é só sentir...

- Mamãe, também não concordo com o que o Léo falou lá, de que todo o mundo é poeta; não é não, tem gente que não é poeta.

Largo uma risada: - Concordo, filha, acho que tem gente que não é poeta.

Já em casa, Júlia toma banho e quer dormir, parece que esquecida da noite, da poesia. Antes, lê uma adaptação de um livro, "Dom Casmurro", e fala:

– Mamãe, todo mundo diz que esse livro é ruim, mas ele é tão legal, eu tô gostando.

- Eu também gosto, filha, é muito bom...Bentinho, Capitu, muito legal.

Logo, vem e me pede pra dormir comigo. Deixo, e vejo que, quando Júlia quer dormir comigo e tão cedo, é porque algo não vai bem. Resultado da Noite de Poesia...

Tento entender o porquê de um colégio realizar esse tipo de Noite ou de Tortura, mas, em silêncio, me cutuco e vejo, cá de longe, sem ser mãe, que, também da decepção, perda, angústia e tristeza, é que nasce a poesia, ou não, afinal nem todo mundo é poeta.


sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Indiana Nomma

Esta cantora daqui de Brasília é maravilhosa!!!


quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O prazer da vingança, Contardo Calligaris (Folha de São Paulo, 15/10/2009)

PODE SER que, ao longo da vida, você nunca tenha sido ofendido. Mas, para a imensa maioria dos humanos, não é assim. Quando crianças, esbarramos em adultos que parecem quase sádicos, na sua incapacidade de nos escutarem e entenderem; logo depois, encontramos os "bullies" da turma do fundão da sala de aula, da praia ou da rua. E assim continua.

A vida de cada um escolhe as encruzilhadas em que sofremos mil violências morais ou físicas, grandes ou pequenas. Com elas, em regra, não ganhamos nada, a não ser que a gente acredite numa justiça divina após nossa morte: quem sofre aqui na Terra será recompensado nos céus. Também podemos nos consolar com a ideia de uma "grandeza" moral que nos seria própria, pela "generosidade" com a qual aguentamos as ofensas, esquecendo-as ou mesmo oferecendo gentilmente o outro lado do rosto.

Mas resta uma dúvida (que compartilho com Nietzsche, "Genealogia da Moral", Companhia das Letras): nossa moral aparentemente generosa e a esperança de que Deus, um dia, recompense os ofendidos e puna os ofensores talvez seja uma grande invenção coletiva, criada, justamente, para que as vítimas sejam confortadas e possam perdoar não tanto aos agressores, mas a elas mesmas, ou seja, perdoar a "covardia" da qual elas acabam se acusando, num eterno lamento por elas não terem revidado na hora.

Disse antes que, com as violências que sofremos, não ganhamos nada. Mas não é bem assim: o lamento de não ter revidado é uma das grandes fontes da ficção. Pense bem: inúmeras vezes, dias e mesmo meses a fio, depois de ter sido insultado, machucado, assaltado, empurrado real ou simbolicamente, você ficou imaginando e aprimorando, em seus detalhes, desfechos diferentes, nos quais você, na hora da ofensa, teria imediatamente resgatado sua honra e punido o agressor, deixando-o tão inerte e silencioso quanto você mesmo ainda lamenta ter ficado. Em suma, o desejo frustrado de se vingar é uma poderosa matriz narrativa, sobretudo nos devaneios privados, em nosso cinema de bolso, que fica escondido por ele ser pouco conforme com os ditados da moral dominante.

Quentin Tarantino, com "Bastardos Inglórios" (que acaba de estrear e é um de seus melhores filmes), leva esse cinema de bolso para as salas: é uma verdadeira festa de vingança, uma fantasmagoria cuja violência é alegre e libertadora.

A história contada não cola direito com os fatos da Segunda Guerra Mundial? Você acha curioso que um bando de soldados dos EUA, infiltrados na França ocupada pelos nazistas, aja como índios apaches saídos de um bangue-bangue, recolhendo os escalpos dos que conseguem matar? Ou se surpreende com o fato de que eles marquem com uma suástica na testa os poucos que eles decidem poupar?

Pois é, reconheçamos a Tarantino a mesma liberdade que nós nos permitimos em nossos devaneios de vingança.

Para o que serve essa liberdade de imaginar? Talvez as ficções e, em particular, o cinema (de bolso ou de sala) tenham algum poder de alterar a história, fazendo justiça, por exemplo. Não digo isso apenas porque, em "Bastardos Inglórios", a vingança final acontece graças a uma sala de cinema. E, é claro, sei que os devaneios, em geral, não se realizam mas também sei que eles nunca são vãos, simplesmente porque são o alimento de nosso desejo.

Um outro filme, lindíssimo, conta com uma distribuição limitada e talvez não chegue às salas do Brasil inteiro (no caso, anote o título e espere o DVD): "Deixa Ela Entrar", de Tomas Alfredson. É um filme sueco, que é apresentado como uma história de terror, e é verdade que há um vampiro no filme. Mas o meu prazer de espectador foi outro...

Acho que já contei: quando era criança, eu tinha uma pequena orquestra imaginária, que levava sempre comigo. Ela me servia para combater o tédio, sobretudo quando acompanhava meus pais em intermináveis visitas a museus. Passei bons momentos com a minha orquestra, mas confesso que teria adorado ter também outros amigos imaginários, mais eficientes na hora dos apuros. Uma vampira que gostasse de mim teria sido perfeita. Já imaginou? Alguém que saísse das sombras e arrancasse os pescoços, as cabeças e os braços dos idiotas que me azucrinavam a vida?

Pois é, "Deixa Ela Entrar" é a história de um menino que tem (ou inventa?) a amiga imaginária da qual ele precisa, para se vingar. De uma amiga assim, todos precisamos.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Permaneço

Hoje
tenho todas as idades em uma
Nelas, percorro o mistério dos dias para chegar
em nenhum lugar

Não estando
Não sendo
Sou tudo e nada
em anos que se iniciam
e se findam

Volto
ao meu porto de saída
e de todas as chegadas
De cá,
lá,
busco estradas
Sigo
Retorno
e Permaneço